VALÉRIA GUERRA, POETISALUZ

JUSTIÇA SEMPRE..........

Textos

MUITO ALÉM DO DOMO... CLTS 32
                                                                                                  





                                                                                                          2020 - DECEMBER



— Esfriou demais hoje. Antônia esfregava as mãos, tentando se aquecer.

A mulher se agasalhou e foi até o quintal. Olhou para cima: o tempo nublado parecia eterno. As mãos geladas dispensaram as luvas, que deixou sobre a mesa da copa. Olhou suas margaridas murchas e sentiu um calafrio. — A friagem queimou minhas belezinhas.

Depois foi até a horta e viu seus tomates secos. — As hortaliças morreram! Meu Deus!

Mas suas rosas resistiram, e isso a deixou sã. Seu olhar, entretanto, permanecia triste. — O mundo parece ter sido congelado pela peste nova, um vírus que faz estrago até na alma. O frio já é desconcertante... imagina isso associado a uma pandemia.

Antônia dialogava consigo mesma. A mulher solitária entrou em casa, passou pela copa, pela cozinha grande e alcançou uma sala de jantar imensa. Depois entrou por um longuíssimo corredor que a levou a um lavabo, situado no fim do trajeto.

Antônia lavou as mãos vinte e cinco vezes. Depois esfregou álcool 70% em todo o corpo e rosto, seguindo religiosamente as recomendações das autoridades. Após essa assepsia, limpou sua banheira rosa pela enésima vez naquele dia. Passou álcool em toda a extensão da louça, abriu as torneiras com água extremamente quente e se sentou em uma poltrona no ambiente. Ali cochilou, até que a banheira enchesse.

Antônia era aposentada do INSS, servidora federal. Cumprira todos os requisitos para sair de lá com pelo menos dez salários-mínimos. O interessante é que tinha apenas 58 anos. Ingressou no serviço público por concurso aos 33 anos.

Tinha um sonho: morar em Londres, livre das artimanhas nacionais de um país que classificava de corrupto. Estar em Londres era um sonho consumado, dantes apenas uma utopia.


Rafael era o mais observador de todos os felinos — discurso que Antônia sempre repetia. O bairro histórico de Hampstead guardava, em sua ambiência clássica do século XVII, um lindo parque natural, o Hampstead Heath. E foi lá, em um de seus passeios matinais, que Antônia encontrou o rajado Rafael. A mulher não pensou duas vezes: levou-o para casa. O filhotinho observador cresceu e passou a ser a melhor companhia da ex-funcionária do INSS. Antônia radicou-se em Hampstead em 2018, quando uma amiga internacional alugou uma casa na cidade para ela.

O telefone começou a tocar insistentemente. Antônia estava com um roupão azul, com o rosto de Rowan Atkinson — travestido de Mister Bean — nas costas. Um dos divertimentos preferidos da administradora de empresas e advogada era assistir às películas e desenhos em que Mister Bean atuava. Os gostos da senhora Antônia não se coadunava muito com o senso comum. Além da formação em Direito e Administração, estudara Filosofia, Etiqueta, Pintura, e, antes da pandemia, fazia mestrado em História da Arte na Universidade de Londres.

A campainha soou, e Antônia afastou a cortina de linho lilás. Através da vidraça limpíssima, pôde ver uma mulher alta, loura, que usava batom vermelho nos lábios. Toninha enxergava muito bem...



                   2025 – MINAS GERAIS

Ana Maria estava sentada em seu quarto, digitando incessantemente no computador. Tecia mais uma solicitação a um dos advogados da tia. Advogada e sobrinha, seu coração sangrava ao ver a tia querida definhar: — Suas pernas ardem, a depressão não cessa com os medicamentos, disse ao telefone. A tia de Ana não parecia ter 65 anos; aparentava 85 pessimamente vividos.

Um felino miava do lado de fora da casa, que possuía um amplo quintal todo telado, para evitar que o animal fugisse. Sobrinha e tia amavam os gatos. A residência abrigava Rafael, Uriel, Davi e Sofrônia, a única fêmea do clã. Ela recebera essa graça para homenagear outra tia  de Ana, que morrera contaminada pelo SARS-COV-2.

Do quarto contíguo ao de Ana, ouvia-se o som de um violino tocando Chopin. A Marcha Fúnebre, ouvida por Antônia todas as manhãs, era a única diversão — se é que se possa chamar assim — que trazia algum alento à esquálida mulher.





                   2016 – RIO DE JANEIRO

Ribamar estava ao telefone, sussurrando. Atrás dele passava uma mulher esguia e bonita, vestida como dândi, que de vez em quando usava Prada. Durante os sete dias da semana, Antônia não repetia roupas. Sapatos? Só Diamond Dream. Maquiagem? Chanel. Os cabelos, com reflexos, pareciam retocados com fios de ouro, sempre com mudanças de corte mensal, amaciantes estrangeiros e viagens frequentes.

Aliás, as viagens ocorriam bimestralmente. Ribamar era superintendente local, e Antônia Albuquerque gerenciava aquela agência do INSS, em um bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. Como superintendente, tanto Ribamar quanto Antônia desfrutavam de excelentes salários.

Em uma tarde dos anos 2000, os colegas saíram mais cedo da agência para um happy hour sagrado às sextas-feiras. Foram para a Barra da Tijuca, onde Ribamar residia. Antônia morava em Copacabana desde que conquistara a vaga no Instituto Previdenciário. Ninguém no trabalho sabia ao certo como fora seu ingresso: uns diziam que ela caíra de paraquedas politicamente no setor.

Ribamar, por sua vez, era concursado e seguia os ritos de passagem de cargo em cargo: ele superintendente regional, ela executiva, supervisionando outras agências, apesar de ficar três dias durante a semana na agência de origem.

Rumores sobre a amizade dos dois colegas — a respeito de um possível caso amoroso — se espalhavam pelos corredores da agência. Os dois nunca deram bola para as fofocas. Ribamar olhava feio para os subalternos e, sempre que podia, prejudicava algum.

Ambos não tinham empatia pelo público, pelos previdenciários ou pelos aposentados; suas posturas antipáticas eram redutoras de gente.

A boate mais quente da Barra iniciava sua noite às 19 h, o casal se acomodou em uma mesa. Curiosamente, Antônia tinha até segurança e motorista particular, um luxo só.

A noite foi regada a tudo que se possa imaginar. Homens e mulheres dançavam até o amanhecer, às 6 H. Uma mulher seminua, que subira em uma das mesas e fizera um show à la strip-tease, apenas de calcinha e sutiã, foi abordada por Ribamar, que já bem alcoolizado correu para cima dela. Dois seguranças gigantescos atacaram o rapaz e o espancaram até a morte.



                              2022 – AGOSTO

— Minha irmã morreu no parto. Eu ajudei meu cunhado financeiramente a criar Ana, paguei seus estudos em colégios bons. Depois, o pai dela faleceu, no dia de sua formatura, em um acidente trágico. A menina ficou com depressão por meses, mas conseguiu se aprumar, passou na prova da OAB e hoje é reconhecida em sua profissão.

— Amo minha sobrinha. Ela não tem culpa de nada. A errada sou eu, quis demais. E acabei assim, mas não queria matar Ribamar, isso não.

Antes da decretação de sua prisão, ainda em meio à pandemia — ou sindemia, como queiram — Antônia foi para uma cela. Seis meses depois, ficou enferma com COVID-19. E foi para um hospital no Brasil, ficando desenganada e entubada. Sua sobrinha cuidou do seu maior amor: Rafael. Quando escapou da morte, voltou à prisão, agora domiciliar, amargando três longos anos. Sua sobrinha permaneceu ao lado dela e assessorava os advogados da tia nos trâmites do processo.

Antônia foi condenada também por contratar uma mulher para atrair Ribamar, onde os falsos seguranças exageraram e o espancaram até a morte. Entretanto, comprovou-se que sua intenção foi dolosa. A pena por fraude e desvio de verbas foi amenizada pela confissão. Devido às doenças crônicas, precisou usar tornozeleira e cumprir prisão domiciliar durante muitos anos.

Autores e autoras do CLTS. Quero desejar a todos prosperidade literária. Quando me levantei hoje e me dirigi ao computador para ler os contos que ainda faltavam analisar, senti uma intuição mui precisa de que deveria retirar-me do Concurso, insistir seria chover no molhado. E como a intuição é a forma de inteligência mais louvável, segundo guarnece a filosofia, resolvi atender a este ímpeto. Vejo como premente mudanças estruturais para revitalizar o Concurso; se eu continuasse não estaria honrando minha literalidade. Talvez, a qualidade e excelência dos textos não estejam sendo valoradas como poderiam, visto que, ser concorrente e avaliador em Certames pode arranhar a realidade concebida, deixando por vezes que as emoções transbordem. O ideal realmente seria a existência de um júri externo, como uma vez sugeri ao senhor Gilson Raimundo. Gosto de participar do Concurso Literário de Terror e Suspense, porém noto em certos comentários, que as críticas, não se coadunam com o conteúdo escrito, pelo menos com o cuidado que a tarefa exige. Não irei citar exemplos por questões éticas. Mas de forma geral, vi isto acontecer nesta e em outras edições do CLTS. Por exemplo, fui criticada por utilizar o mistério durante a narrativa, no entanto, outro escritor que também utilizou tal mecanismo: fora exaltado, fica um pouco difícil participar assim...e isto é só a ponta do iceberg. Tenho guardada comigo uma análise neutra a respeito do meu texto, advinda de um literato mui assertivo em termos de análise literária, e percebo neste documento as entrelinhas da criticidade ideal. Fico feliz de ter sido lida, e agradeço aos que gostaram de minha confecção. Neste momento, realmente, não me sinto feliz em continuar, gostaria até de analisar os contos restantes, que já havia lido e relido (com atenção e esmero, e na íntegra) mas sinto que tomei a melhor decisão. PAZ E LUZ. Felicidades ao clã CLTS!





                    2025 – MINAS GERAIS

Do quarto ao lado do de Ana se ouvia o som de um violino tocando Chopin. A Marcha Fúnebre embalava Antônia todas as manhãs e era a única diversão — se é que se possa chamar assim — que trazia algum alento à esquálida mulher.

Naquele dia, chegaria uma visita muito importante, autorizada pelo juiz: Helga.

Ana Maria sabia que a amiga da tia nada tinha a ver com as investigações que levaram à prisão de Antônia. Ela visitou a residência londrina apenas para avisar que seria melhor se refugiar na casa dos pais dela, na Alemanha.

Mas Toninha dos Golpes não acreditava em traição. A sobrinha, que só soubera de tudo quando a tia foi deportada para o Brasil, ficou horrorizada, mas perdoou sua tia, por gratidão.

Helga chegou e foi abraçada por Ana, que a preparou para o que veria. Uma Antônia magérrima estava deitada na cama, e a Marcha Fúnebre tocava. A tornozeleira estava frouxa em sua perna. Helga entrou, mas Antônia não a reconheceu.

Helga ficou quinze dias na casa de Ana, assistindo à rotina, inclusive ao amor que Rafael nutria por Antônia. Ele não a deixava sozinha, sempre juntinhos após as refeições... Em quinze dias, Antônia engordou e ficou mais rubra.

No décimo quarto dia, as duas se reconciliaram. Antônia reconheceu a amiga e perguntou:
— Como estão minhas margaridas, rosas e hortaliças?

Helga, com os olhos umedecidos, respondeu:
— Vivas. Minha neta está morando lá e cuida de tudo com esmero.

— Mas agora é nossa vez. Está tudo pronto. Substituirei você por este clone; sua sobrinha nem irá desconfiar... pode crer!

— Não vou. Prefiro cumprir minha pena e, um dia voltar a Hampstead. Lá será minha terra da igualdade — respondeu Antônia, timidamente.

Helga, agora com o clone perfeito de Antônia em mãos, fuzilou-a com um olhar de ira. Saiu chorosa para a sala, deixou a bolsa, retirou um objeto de metal e voltou ao quarto, perfurando o coração da detenta. Antônia expele sangue pelas narinas e boca.

Rafael deu um pulo certeiro no pescoço da alemã, cravando dentes e garras em sua carótida. O sangue esguichou e manchou as paredes alvas. A mulher gritou, antes de morrer. Ana adentrou o quarto e viu a cena aterradora. Sussurrou ao felino que cheirava o corpo inerte da tutora - Nosso calvário acabou! Vamos limpar tudo, programar o clone e fugir para nossa terra isolada e feliz, muito além do Domo...






Autores e autoras do CLTS. Quero desejar a todos prosperidade literária. Quando me levantei hoje e me dirigi ao computador para ler os contos que ainda faltavam analisar, senti uma intuição mui precisa de que deveria retirar-me do Concurso, insistir seria chover no molhado. E como a intuição é a forma de inteligência mais louvável, segundo guarnece a filosofia, resolvi atender a este ímpeto. Vejo como premente mudanças estruturais para revitalizar o Concurso; se eu continuasse não estaria honrando minha literalidade. Talvez, a qualidade e excelência dos textos não estejam sendo valoradas como poderiam, visto que, ser concorrente e avaliador em Certames pode arranhar a realidade concebida, deixando por vezes que as emoções transbordem. O ideal realmente seria a existência de um júri externo, como uma vez sugeri ao senhor Gilson Raimundo. Gosto de participar do Concurso Literário de Terror e Suspense, porém noto em certos comentários, que as críticas, não se coadunam com o conteúdo escrito, pelo menos com o cuidado que a tarefa exige. Não irei citar exemplos por questões éticas. Mas de forma geral, vi isto acontecer nesta e em outras edições do CLTS. Por exemplo, fui criticada por utilizar o mistério durante a narrativa, no entanto, outro escritor que também utilizou tal mecanismo: fora exaltado, fica um pouco difícil participar assim...e isto é só a ponta do iceberg. Tenho guardada comigo uma análise neutra a respeito do meu texto, advinda de um literato mui assertivo em termos de análise literária, e percebo neste documento as entrelinhas da criticidade ideal. Fico feliz de ter sido lida, e agradeço aos que gostaram de minha confecção. Neste momento, realmente, não me sinto feliz em continuar, gostaria até de analisar os contos restantes, que já havia lido e relido (com atenção e esmero, e na íntegra) mas sinto que tomei a melhor decisão. PAZ E LUZ. Felicidades ao clã CLTS!












Valéria Guerra
Enviado por Valéria Guerra em 27/08/2025
Alterado em 15/09/2025
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