VALÉRIA GUERRA, POETISALUZ

JUSTIÇA SEMPRE..........

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Humberto entre a cruz e a espada
Humberto entre a cruz e a espada

Humberto passou no vestibular. O ano era 1980. A cadeira escolhida foi Biologia, Ciências Físicas e Biológicas.

Aluno exemplar do ensino médio, sempre gostou de História e Filosofia. Tinha ele uma sensibilidade ímpar em relação aos problemas sociais da nação chamada Brasil. Mas também sempre foi bom em Ciências. Estudar a célula era a sua preferência.

O primeiro ano da faculdade foi maravilhoso, já o segundo trouxe um pouco mais de responsabilidade. As disciplinas de Fisiologia e Botânica fascinavam o aluno Humberto, que era muito dedicado aos estudos. Ele gostava de ambas as disciplinas, além de contemplar Anatomia e, ao contrário dos demais alunos da classe, encontrar nela um ponto forte. Não via antagonismo entre as disciplinas. Na realidade, gostava de todas.

Atualmente, os estudantes das universidades nutrem dedicação aos estudos, mas talvez nem tanto quanto os estudantes na década de 80. A troça estudantil sempre fora uma tônica, independentemente da época vivida pelos estudantes. Porém, na hora da responsabilidade, a tendência é ouvir e atuar.

Em uma manhã de outubro, Humberto seguia para a sala de aula quando ouviu um som estranho, advindo do refeitório do campus universitário. Ele mudou seu rumo e resolveu dar uma espiadinha. E lá já estava instalada a balbúrdia.

Seu coração bateu mais forte quando ele viu um de seus colegas de classe todo lambuzado de molho de tomate, enquanto seis outros rapazes seguravam Flávio pelos braços e pelas pernas. Flávio gritava:

— Parem, parem!

O aluno resolveu nada fazer. Estava pensativo quando avistou o reitor da universidade, que chegava naquele momento.

Quando Antônio de Sá apareceu à porta do refeitório, recebeu um golpe de bastão de beisebol na altura da testa, caindo imediatamente inconsciente.

— Que situação! — pensou Humberto, que, até aquele momento, nada fazia, nada fizera, nada providenciara. Apenas olhava, atônito, aquele momento atípico, em que reinava total discordância.

Graças ao bom Deus, o reitor e excelente geneticista sobreviveu àquele golpe, e os alunos envolvidos na situação foram submetidos a uma investigação rigorosa, que chegou às raias do universo jurídico e criminal. Tudo isso culminou na prisão dos seis alunos universitários.

Passados 44 anos daquele episódio que quase terminou em tragédia, Humberto, além de biólogo, tornou-se também filósofo e passou a investigar, sob diferentes perspectivas, o comportamento humano. Professor do ensino médio, ainda em atividade, decidiu transformar aquela experiência marcante em objeto de estudo.

A lembrança do que presenciara no refeitório da universidade deu origem a uma peça de teatro muito bem elaborada, encenada por seus próprios alunos em diferentes lugares do Brasil. O episódio também o inspirou a publicar um livro sobre o comportamento dos estudantes universitários entre 1980 e 2024, resultado de pesquisas que fundamentaram seu trabalho científico.

Agora, ao preparar sua tese de doutorado, Humberto retoma aquele passado sob a perspectiva da psicanálise, outra de suas áreas de atuação. Quarenta e quatro anos depois, a cena permanecia viva em sua memória, trazendo à tona questões sobre a responsabilidade individual, a violência coletiva, a omissão diante do sofrimento alheio e os limites entre a brincadeira e a barbárie.
Valéria Guerra
Enviado por Valéria Guerra em 15/10/2026
Alterado em 15/10/2026
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